Vidança
Formar é sonhar
A história do Vidança mostra, assim, como as pessoas podem viver a Dança como produção de si e de suas profissões também, o que nos faz ver que para além das formas como a reprodução do sofrimento social acontece, se pode ver processos de singularização, maneiras de fazer viver o corpo em arte e na vida, capazes de emancipar o humano. É que a arte tem uma força imensa como universo de símbolos que ajudam a viver e enfrentar a vida. No esforço de dar sentido ao que se vive na partilha do mundo da dança, se muda imaginariamente o que se viveu e, portanto, efetivamente se transforma sensibilidades e se prepara novas escolhas concretas de vida.
É nesse sentido que se pode dizer que a Cia. Vidança surgiu da história das estratégias de dança vividas pelas populações mais empobrecidas. Em nosso caso, começou pela Escola do SESI (Serviço Social da Indústria); extinto o SESI, tivemos de fundar a Associação Vidança Cia. de Dança do Ceará, pela necessidade que a bailarina Anália Timbó sentiu, junto com um grupo menor que a gente chamava corpo de baile - e que lhe acompanha até hoje, agora como educadores -, de continuar o trabalho do ensino da dança, iniciado neste bairro da Barra do Ceará. Com o tempo, contudo, sem local próprio, o Vidança teve de se mudar para um lugar mais longe ainda, mais para o fundo da região da Barra do Ceará, o bairro Vila Velha, onde foi conseguida uma casa de aluguel que funciona até hoje como nosso estabelecimento educacional, calcado no ensino da Dança.
Trinta e um anos se passaram desde esse tempo em que se deu continuidade ao ensino de Dança, há trinta e um anos, em Vila Velha. Com o passar dos anos, fomos complexificando o trabalho, uma vez que se devia atender a pessoas concretas: crianças e adolescentes (a partir de 7 anos) e aos jovens (a categoria juventudes é uma categoria sociológica e não fica restrita a uma idade cronológica fixa, mas na prática fala-se dos que passam dos 18 anos e se estende aos vinte e nove). A adolescência foi cunhada como de 11 a 18 anos, sobretudo dentro do prisma dos direitos, uma vez que ao tentar a cobertura do Estado para a formação juvenil, a luta popular teve de partir disso: de colocar um cuidado com essa faixa etária sob os auspícios das políticas públicas. O objetivo, contudo, do movimento popular, que vai sendo incorporado pelo Estado – na verdade, por suas políticas públicas -, é ir alongando essa periodização; e, assim, se vai buscando políticas públicas para a infância inteira e para a juventude e suas especificidades.
Isso em certa medida, fruto de extensas lutas sociais, já acontece em parte: no cenário brasileiro se vê um surgimento de políticas públicas para a infância, adolescência e juventudes. Coloca-se, pois, no plural, o termo juventudes pela variabilidade das culturas, em sua diversidade de formas, de desenhos, etc., de vivenciar o fenômeno social desta época da vida, em seu curso tão vário.
Nesse quadro de exclusão social nos movemos. Diante da vivência de problemáticas mais e mais agudas – que exigem um olhar mais atento e um cuidado social para se conseguir atingir as possibilidades de uma formação em Dança, junto à formação escolar obrigatória – fomos atentando nos aperceber das especificidades das pessoas, como também das necessidades de responder à complexidade que as comunidades exigiam. E como eram essas demandas?
Olhe, a produção das condições de suas vidas – das comunidades – é entregue aos jovens pobres desde muito cedo, às vezes quase crianças. Mesmo que tenha havido certo incremento de políticas públicas que atuam junto à fome, à infância e à adolescência e juventudes, em termos de trabalho as políticas públicas não avançam com a velocidade dos problemas sociais de nosso país. Em vista dessa problemática social grave, multicausal, os pais pobres não alcançam serem provedores de seus filhos; resultam, inclusive, por serem quase que “parceiros” de seus filhos, quando não os pedem para os sustentarem, em uma reversão que os leva a terem de trabalhar muito cedo para sustentar a si próprio e, não raro, à suas famílias. Isso acontece por um leque largo de causas.
Desse modo é que tanto a produção do vínculo social – a responsabilidade de nutrir afeto junto a parceiros na vida –, como a produção de suas vidas (financeira e socialmente), fica a cargo deles, adolescentes e jovens, muito cedo, antes que uma formação mínima escolar se complete. Assim é que os adolescentes e jovens vão construir suas identidades, trabalhar sua socialização, realizar sua individuação, buscando em si mesmos os recursos de realizarem estas tarefas. Uma formação em Dança deve dar conta de tudo isso, de maneira a viabilizar a estada das crianças, adolescentes e jovens por um turno nas aulas e experiências pensadas para essa formação artística.
As solicitações do narcotráfico e da prostituição, dois grandes negócios alimentados por grandes esquemas econômicos e que possuem suas ramificações na periferia, vão fazendo parte da vida de todos em Vila Velha, de algum modo – e luta-se para que as pessoas não naturalizem, banalizem determinados fatos extremamente violentos, aviltantes.
Estas situações não são de pronto detectadas e rondam o mundo dos adolescente e jovens da periferia com seu cerco de aparências enganosas e… sedutoras. Assim, adolescentes e jovens da periferia se escravizam a processos de sobrevivência grandemente mortíferos, degradantes, com a “maquiagem” que não os deixa, de início, mostrar seu rosto.
Mesmo sabendo disso, é preciso não confundir pobreza com transgressão e criminalidade, com problemas de segurança. O contingente de pessoas trabalhadoras que sustentam o mundo e movem os países e a vida social é constituído de grandes parcelas da população fora do acesso a boa parte dos frutos do trabalho coletivo.
Evidente que trazer toda a família – ou os vínculos, os laços sociais – do adolescente e do jovem que estuda Dança, para o Vidança, e ofertar-lhes algum tipo de perspectiva nova, que se acresça ao mais que eles puderem ir tecendo como possibilidade de transpor riscos e vulnerabilidades sociais, será sempre um desafio. Realizar aproximações disso foi nosso intento. Como?
Tínhamos certo que não deveríamos modificar nosso foco: o ensino da Dança no Vidança, sua veiculação como escola e criação de espetáculos, usina de arte e criação, em suas várias ramificações, capazes de evidenciar as possibilidades e complexidades do fazer espetáculo e profissionalizar-se em Dança hoje. Como trabalharíamos estas possibilidades – figurino, adereço, carpintaria teatral, cenografia, música (em especial cênica), dramaturgia, coreografia, história da arte cênica, literatura, criação de espetáculos, pesquisa de gestos e movimentos da cena brasileira cotidiana, Danças Dramáticas Populares, Dança Contemporânea; Capoeira e danças de matriz afrodescendente; além do acervo do balé clássico, base biomecânica e estética que representa um saber também de inegável valor? Juntando algumas dessas luminuras, fomos tentando realizar a inclusão dos pais e vínculos sociais das crianças, adolescentes e jovens, ao mesmo tempo em que tentávamos dar ao ensino da Dança a complexidade que se requer na formação de um profissional na área atualmente.
Hoje a Vidança oferece para a comunidade do Vila Velha aulas de ballet (para crianças, jovens, adolescentes e idosos), percussão, curso de corte e costura, carpintaria, artes manuais, hip hop, capoeira, biblioteca comunitária, além de diversos outros cursos profissionalizantes que estão freqüentemente acontecendo. Envolve jovens em estudo de percussão e vários ramos de ofícios criativos, como carpintaria, etc. e mantém a ação formadora dentro de um leque como citamos acima: complexo, capaz de diversificar o olhar multicultural para atender ao mundo da população com quem dialogamo
Objetivo:
Atender à centralidade da formação em Dança, especialmente voltada para a infância, adolescência e juventudes, sem deixar de cumprir a amplificação e complexidade que essa formação requer e, ainda, sem deixar de atender os vínculos sociais que constituem a constelação familiar dos que participam do Vidança, de maneira a não nos alienarmos dos processos de exclusão social que dificultam a continuidade do trabalho de professores e alunos do Vidança.
PRINCIPAIS PROGRAMAS:
ESCOLA VIDANÇA – ESCOLA DE PESQUISA, CRIAÇÃO E ENSINO DA DANÇA (ARTE-EDUCAÇÃO E CIDADANIA COM DANÇA) – A Cia. Vidança mantém, há trinta e um anos (31), um trabalho de ensino da dança às crianças e adolescentes no Bairro da Barra do Ceará, bairro periférico situado em região de mangue. Na tentativa de incorporar as referências populares do lugar, implantamos em 2000 um grupo de ensino de capoeira, cujo curso é ministrado por monitores da própria comunidade. O curso atinge os adolescentes que se voltam para a arte da dança e música, dentro dos cânones da capoeira e da percussão. As mães das crianças recebem cursos específicos que envolvem o fazer práticos da composição de espetáculos, uma vez que a tradição primeira do lugar remete as mulheres para as artes manuais e viso-plásticas. Todavia, temos alcançado atuar com as mães e adultos vinculados a estes adolescentes também com cursos de Consciência Corporal, além de proporcionar-lhes momentos de vivência em Dança, mediados pelos próprios adolescentes e crianças. Com os adolescentes criamos em 2002 um grupo especialmente voltado ao ensino da percussão, com os jovens que não desejam desenvolver-se especialmente com a Dança.
Ressaltamos o caráter intergeracional de nossa ação educativa, uma vez que incluímos os vínculos adultos das crianças e adolescentes com os quais trabalhamos, em uma estrutura participativa e modular, usando material reciclado, nas aulas de criações manuais, voltado para a confecção dos figurinos, como forma de valorizar nas artes manuais o fazer concreto destas populações. A Barra do Ceará é um dos bairros mais violentos e pobres de nossa Capital, mas sua produção cultural mostra pujança e riqueza incomuns, a idéia que temos é a de que um trabalho com Dança envolve uma abertura para a expressividade em outras linguagens que resultam por auxiliar nos espetáculos e compõem a própria formação geral na arte da Dança.
No contexto da ESCOLA VIDANÇA – ESCOLA DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL DE PESQUISA, CRIAÇÃO E ENSINO DA DANÇA (ARTE-EDUCAÇÃO E CIDADANIA COM DANÇA) realizamos as seguintes ações, que abaixo descreveremos:
ESCOLA DE ARTES E OFICIOS VIDANÇA– A Associação desenvolve um trabalho voluntário ministrando aulas de ballet clássico, danças dramáticas, laboratório de criação coreográfica, dança criativa, alongamento, consciência corporal, criações viso-manuais, criações literárias, capoeira, rip-rop, percussão, carpintaria, em Vila Velha, atendendo a crianças e adolescentes.
TAMBATUQUE DO VIDANÇA– Grupo de percussão formado por crianças e jovens de Vila Velha, como expansão expressiva do processo de formação em arte e que já possui sua história como linguagem e como grupo que vivencia seus processos de autonomização e inserção nas comunidades do lugar e no ambiente amplo de nossas apresentações artísticas.
Percussão, Carpintaria – Temos incluído o Tambatuque do Vidança como grupo que faz a música cênica dos nossos espetáculos, mas que possui sua autonomia como grupo artístico, como linguagem que se apresenta também por si. Nesse construto formativo que envolve música percussiva, inscrevermos a carpintaria como extensão da percussão. Aliamos arte a ofícios, em uma formação mais ampla e associamos o acréscimo do estético à artesania que se calça na carpintaria e suas derivações.
BIBLIOTECA COMUNITARIA – Como culminância de nossa ação cotidiana que instaurou as práticas leitoras como hábito no Vidança (parte do horário de todos os que ensinam e os que fazem sua formação em Dança), temos a ideia (que estamos a publicitar), uma vez que já está em funcionamento, de termos nossa biblioteca comunitária, para ser utilizada por todos do lugar. De início frequentada pelos que fazem sua formação em dança no Vidança, temos o desejo de que sirva às comunidades do lugar como um todo.
CONTAÇÃO DE HISTORIAS – CORTEJOS NAS CALÇADAS – Estas são ações que desenvolvemos como fazendo parte de nossas práticas leitoras: elas envolvem um diálogo entre literatura e dança, música (percussão) e cena teatral (cortejo). Esse dialogismo é a própria forma como nossa gente, em suas matrizes multiculturais, se articula, ao articular arte e culturas diversas em diálogos artísticos de extremo valor também como experiência humana.
RETALHOS DA VIDA – GRUPO INTERGERACIONAL – Promove encontros e propicia a troca dos saberes entre as gerações, como forma também de envolver e fortalecer os vínculos familiares e afetivos das crianças, adolescentes, jovens e adultos da ação educativa e artística do Vidança. O diálogo inter geracional aqui tem sua forma mais consciente, fundamental para a elevação da autoestima de cada um; e para selar o compromisso com a comunidade maior; desvela-se como descoberta pessoal e fortalece os grupos que constituem o todo do Vidança. Participam do grupo inter geracional mães e demais vínculos que desempenham diariamente atividades de conscientização corporal e trabalhos manuais, juntamente com as crianças, adolescentes e jovens, que partilham das criações viso-manuais destes membros de sua constelação familiar.
NÚCLEO DE FORMAÇÃO e PROFISSIONALIZAÇÃO VIDANÇA – envolve todas as ações supracitadas, enlaçando-as em um contexto formador, que tem como desdobramento fundamental a profissionalização em Dança. As crianças e adolescentes que são alvo dessa nossa ação assistem às aulas que são ministradas pelos bailarinos das Cia. Vidança que também são os professores da Associação Vidança, que compõe o que estamos a nomear de Núcleo de Formação e Profissionalização. O Núcleo assume a direção de todos os trabalhos da Associação, vivenciando as ações que mencionamos acima, o que constitui uma produção de cultura e saber na área, criando também uma ambiência educativa de construção da arte e do valor às matrizes expressivas culturais do lugar. Também há um momento de desenvolvimento da formação em Dança que implica o estágio dentro dos contextos educacionais vivenciados pelos bailarinos da Cia. Vidança.



